ANALÓGICO VERSUS DIGITAL
O analógico tem como fundamento a relação existente entre a cópia e o original. Analogia significa semelhança de características (1). O mundo analógico é um mundo que existe em vez de... em vez do mundo real. Ou seja, é um mundo que pretende representar um outro, cujas características em tudo se assemelham: ao pintar um quadro, o pintor pinta uma analogia daquilo que vê no seu interior ou com o seu interior. Aquilo que representa pretende ser uma imagem daquilo que sentiu, viu, pensou, etc. É uma analogia, uma obra cuja essência se pretende verdadeira e autêntica (2). Uma obra que abre um mundo de realidade (3).
De acordo com Donald Kuspit, a arte representacional corresponde a um tipo de pensamento que assume que o que vemos na obra de arte corresponde ao que vemos no mundo real (4). No mundo digital aquilo que vemos é a própria realidade da imagem digital; isto é, uma trama de pixels que conforma uma imagem constituída por uma cadeia de números alfanuméricos. A imagem digital não procura "substituir" a realidade, ela é a realidade.
Na pintura tradicional a representação de uma paisagem ou de um rosto humano procurava, em primeiro lugar, substituir o "original" por uma "cópia", uma versão representativa, que remetesse para o original. Mesmo que de uma mera alusão se tratasse. A fotografia veio intensificar isto: a imagem torna-se uma reprodução exacta da realidade, não uma versão pessoal do olhar de alguém sobre algo. Aqui a figura do autor torna-se a do observador, aquele que não interfere na realidade circundante (e onde o conceito de analogia se torna mais puro). A história revela-nos também como o autor não conseguiu manter-se quieto no seu posto de observador: logo procurou moldar essa realidade ao seu olhar e ao seu sentir.
No mundo digital o autor não observa nem deforma. As imagens que produz não procuram expressar as do mundo real. Elas apresentam-nos outra coisa, um outro mundo, o qual ainda nos é difícil classificar. Diante de uma pintura conseguimos identificá-la enquanto tal. Diante de uma escultura conseguimos percebê-la enquanto tal. A imagem digital requer novos conceitos para ser explicada. Uma pintura é identificada pela utilização da tinta, pelas marcas que ela deixa no suporte. Uma escultura conseguimos perceber a sua forma através do material em que é construída. Na imagem digital o material não existe. A matéria não existe. O que lhe está na base é o software que a criou. Uma ferramenta digital que nos permite a realização de determinadas tarefas ou acções criativas.
Numa gravação digital (caso por exemplo de uma música ou imagem) não existe semelhança, analogia entre os dígitos e o som ou os signos existentes na imagem. A relação entre a cópia e o original é totalmente diferente no caso da reprodução analógica e digital. Existe uma transformação material processada na reprodução analógica, que no caso digital em nada se assemelha ao original, chegando a ser superior, em termos de qualidade, à reprodução analógica (por exemplo no caso da música).
Existem duas questões fundamentais no que se refere à diferença entre as cópias analógicas e digitais: a primeira diz respeito à qualidade, a segunda à característica numérica e electrónica do digital e à sua capacidade de reprodução exacta à velocidade da luz.
"A cópia analógica e digital são ambas transformações materiais de uma ordem ou signo original. Uma palavra escrita ou impressa não é o mesmo que uma palavra falada " (5). Uma pintura ou escultura não são o mesmo que a sua reprodução. Parafraseando Magritte, Isto não é uma pintura (no referente à reprodução por exemplo de uma pintura). " A escrita, contém um traço material, estável no tempo e movível no espaço. A escrita à mão introduz uma relação entre o escritor/leitor e o texto; a escrita à máquina e a impressa relações diferentes. A palavra falada conta com o ouvido para ser copiada e reproduzida. A escrita depende da vista" (6). A pintura contém uma mancha colorida e matérica, estável no tempo. Estabelece entre o pintor / observador e o quadro uma relação diferente da que se verifica na imagem impressa. A relação espacio-temporal entre ambas é diferente.
A configuração do espaço / tempo do autor analógico é diferente da do autor digital. Firmemente assente na página impressa, as palavras dos autores analógicos falam para leitores sem obter uma resposta (7) . Os traços de tinta, as manchas de cor, os sulcos e formas talhadas na madeira ou esculpidas na pedra, permanecem inalteráveis à reacção do leitor / observador, seja através de uma critica, um ensaio ou um livro. As obras analógicas permanecem inalteráveis aos olhos do observador, podendo outros ver nessa obra os mesmos signos, cores e formas (embora a forma como cada um interprete a combinação desses signos possa ser diferente). A obra existe no aqui e agora. É um objecto no e do mundo, existindo num lugar através das leis naturais. Mesmo se existirem muitas cópias (de um texto, uma pintura, uma fotografia ou uma escultura, porque não) todas são sujeitas às mesmas leis do mundo material. Desgastam-se com o tempo. É o comportamento dos objectos no espaço. Desaparecem muito lentamente.
No mundo digital, os textos e imagens são movíveis. Posso mover uma imagem digital pelo mundo inteiro em fracções de segundos. O espaço não oferece qualquer resistência aos bits digitais. Do ponto de vista do observador, a obra digital está em todo o lugar ao mesmo tempo, enquanto as condições técnicas apropriadas se verificarem. Ou seja, quando o observador / utilizador dispuser do software necessário para visualizar a imagem, ouvir a música ou ver o vídeo.
Mas a instantaneidade das obras digitais subvertem a sua capacidade espacial. Incorporada nos ficheiros do computador, as obras digitais subsistem no espaço apenas em função do desejo do leitor / observador / utilizador. O autor digital perde a segurança da sua continuidade espacial.
As paginas dos textos digitais têm a estabilidade de um líquido. Podem ser alteradas no seu arranjo material de traços à medida que são lidos. Podem ser combinados com outros textos, reformatados em tamanho e fonte, ter sons e imagens adicionados ou extraídos dele (8).
Os bits podem ser movidos, apagados e modificados tão facilmente como são lidos. As obras digitais têm mais permanência que as de papel, na medida que podem ser distribuídas e copiadas sem alterações.
1-Mark Poster, Impressão e Autoria Digital , pag14.
2-Walter Benjamin.
3-Heidegger.
4-Donald Kuspit, Arte Digital e Videoarte, pag. 12.
5-Mark Poster, ibidem, pag.14.
6-Mark Poster, ibidem, pag.14.
7-Mark Poster, ibidem, pag.16.
8-Mark Poster, ibidem, pag.16. |
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