AUTORIA DIGITAL
O Autor num mundo de dígitos
O mundo digital é constituido por um código binário, uma sequência de zeros e uns: no mundo electrónico, o zero significa o circuito interrompido, o um o circuito aberto por onde circula a corrente eléctrica, a informação. A uma sequência de oito dígitos (a menor na cadeia do ADN da informação) chamamos bit. Um bit não tem cor, tamanho nem peso e pode viajar à velocidade da luz. É o mais pequeno elemento atómico do ADN da informação. É um estado: ligado ou desligado, verdadeiro ou falso, para cima ou para baixo, dentro ou fora, preto ou branco (1).
Apresenta-se, portanto, como um mundo de negações e afirmações, de escolhas e opções. É neste mar imenso de hipóteses afirmativas ou negativas que o ser humano na actualidade se coloca.
É neste mundo de afirmatividade ou negatividade, positivo / negativo, cima / baixo, superfície / debaixo, frente / verso, que a Matriz da representação do Real se esboça e coloca. Uma matriz de sentidos através do qual percepcionamos a realidade.
Mas que matriz de sentidos é esta? Trata-se de um conjunto de sinais, códigos, que nos permitem identificar algo como real. Uma cadeira é real quando os nossos sentidos identificam em determinado objecto a forma da cadeira, uma forma previamente codificada; ou seja, quando o conceito encaixa na forma do objecto.
Esta matriz é, portanto, o suporte, a cortina que separa o sujeito do objecto. É uma espécie de superfície ou linha que separa o mundo do sujeito do mundo do objecto. Esta linha pode ser a linha do horizonte, que na época medieval separava o mundo das alturas -das coisas supremas, do divinal-, do mundo terreno, da trivialidade quotidiana. A Arte, no fundo, sempre se situou acima desta linha. A Arte é tudo menos trivialidade.
Esta linha tanto pode ser a linha do horizonte como a pele do corpo, que separa (em última instância) o mundo interior do exterior.
Olhando de dentro para fora está o sujeito. Tradicionalmente entende-se por objecto e num aspecto amplo, tudo o que possa ser matéria de conhecimento intelectual ou sensível... o objecto é algo independente do sujeito que o observa: este contempla-o e estuda-o como algo alheio, algo que possui a sua própria realidade independentemente do ponto de vista com que se o trate. Tal definição exterioriza o objecto relativamente à posição do sujeito (2). O sujeito aprecia o que o rodeia e vai descodificando, através dos sentidos e do intelecto, os códigos da matriz em que os objectos estão inseridos ou existem.
Ora o autor é alguém que, percebendo a codificação da matriz, ousa ir para além dela: ousa criar uma matriz nova. Ou mesmo sem a perceber, algo o impulsiona a ir para além dela. É isto que separa o artista do homem comum: este apercebe-se da matriz que o rodeia e insere, intuí a sua presença, aprende a reconhece-la nos pequenos pormenores, nos pequenos detalhes, apreende-lhe o código, os seus constituintes e partes fundamentais, e isto, de tal forma, que é capaz de os reordenar sob uma nova matriz, sob uma nova
configuração: diz-se então que o artista é capaz de criar novos mundos, novos “neos”.
Assim, o autor, ao contrário do mortal comum, ao contrário do número zero, é alguém que ousa afirmar a sua presença no mundo. Segundo Foucault o nome de autor serve para caracterizar um certo modo de ser do discurso: para um discurso, ter um nome de autor, o facto de se poder dizer “isto foi escrito por fulano” ou “tal indivíduo é o autor”, indica que esse discurso não é um discurso quotidiano, indiferente, um discurso flutuante e passageiro, imediatamente consumível, mas que se trata de um discurso que deve ser recebido de certa maneira, e que deve, numa determinada cultura, receber um certo estatuto (3).
É portanto o discurso de alguém que se perfilha número um, não como primeiro, mas como alguém que vence a batalha da criação; alguém que ousa morrer como indivíduo para renascer como autor. Porque a ousadia da criação a isto obriga: a morte do corpo para o sobreviver da obra. A obra que tinha o dever de conferir imortalidade passou a ter o direito de matar, de ser a assassina do seu autor... esta relação da escrita com a morte manifesta-se também no apagamento dos caracteres individuais do sujeito que escreve; ... a marca do escritor não é mais do que a singularidade da sua ausência (4). O autor apaga a identidade do sujeito, como a sensação morre na superfície do quadro com o secar das tintas.
A morte da experiência individual mortifica-se em objecto, a sensação objectualizase na obra, mortaliza-se em objecto. A arte morre tal como o autor que a fez. O resto é História.
A pintura morre. O quadro morre ao fim de quarenta ou cinquenta anos. (...) um quadro morre ao fim de alguns anos, como o homem que o fez; depois chama-se a isto história da arte. A história da arte é uma coisa muito diferente da estética. A história da arte é o que resta de uma época num museu (5). A sensação morre no objecto – quadro e é esse objecto que guardam as paredes dos museus. Um objecto frio, vazio de sensação. O tempo encarrega-se de enterrar os objectos, a História de os preservar.
No quadro tradicional a sensação do artista morre no objecto, na imagem digital vive na sua essência. Ela é luz, não definha, é inalterável ao tempo. Vive efectivamente alheia ao tempo, suspensa do tempo. A imagem digital não ganha brechas com o tempo, as suas cores não esmorecem com o passar dos anos.
Ao contrário dos objectos cujo tempo age sobre eles e que necessitamos preservar (em condições ideais para não os perdermos); esses objectos reveladores da criatividade dos nossos autores, que idolatramos em Museus, essas Catedrais da Arte que erigimos para preservar a nossa identidade colectiva, a imagem digital permanece alheia ao tempo, às suas raízes e estigmas.
O mundo da criação digital é uma espécie de amálgama de opções que se tomam ou recusam, opções estas que não são inconsequentes. Elas produzem uma reacção. Não são estáticas. Revelam-se dinâmicas de potencial de decisão. Interagem. Provocam uma reacção. Não mortificam. Não são objectos. Potenciam uma tomada de decisão.
1- Nicholas Negroponte; ibidem, pag.21.
2- Javier Chavarria; Inmaterial, pag. 36-37.
3- Michel Foucault; O que é um autor?, pag. 45.
4- Michel Foucault; O que é um autor?, pag. 36.
5- Marcel Duchamp in O Engenheiro do Tempo Perdido, pag. 104.
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