LE SANG D'UN POÉTE E O PARADIGMA DO AUTOR
Toda a obra de arte está marcada mortalmente pela tirania do autor. O autor encerraa nas grades do seu egoísmo, da sua precária face que se olha no espelho. O seu “eu” (Deus Criou o Homem à Sua Imagem e Semelhança). Ao Homem foi-lhe concedido, portanto, o “dom” de Deus, o dom do Criador, o dom de criar (à sua imagem e semelhança). Neste sentido pode considerar-se a Arte igual à Natureza, ou, pelo menos, poder ser encarada com igual valor.
Na obra A Condição Humana, Magritte representa uma tela em que a mesma se confunde com uma janela: a qualidade da imagem representada é similar à da percebida através da janela; ou seja, a pintura toma o mesmo valor que a natureza. A “realidade” da pintura é equiparável à realidade da paisagem que reproduz, é-lhe semelhante. A pintura é, portanto, um “falso espelho” (para citar novamente Magritte).
A obra de arte sempre foi um espelho. Uma janela que se abre sobre o mundo, para o mundo. É um olhar, ora do mundo do artista, ora do mundo da natureza, do interior do homem, do interior da mente / sentimento do artista ou da maneira como este contempla a natureza. Ou seja, pode ser uma janela, que abre para o mundo exterior, ou um espelho, se remete para o interior. Assim, a Obra é espelho do seu autor, porque reflecte as suas ideias e sentimentos, e do observador, pois traduz os seus gostos pessoais que
irremediavelmente se traduzem na apreciação da obra: os nossos olhos olham com a alma cheia de nós próprios; ou seja, só vemos o que podemos ver.
O olhar que se reflecte na tela, como se de um espelho se tratasse, é o tema de uma outra obra de Magritte, já referida, O Falso Espelho: nesta obra o que se reflecte é o próprio olhar do espectador, é o próprio olhar do mundo (simbólicamente representado pelo céu).
Nesta acepção é também notória aquela imagem poética patente no Retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde: a imagem do quadro expressa a alma do retratado, tão realisticamente, que se torna insuportável. A arte é mais real que a própria vida. É o espectador, e não a vida, o que a arte realmente reflecte (1). Em O Retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde, o quadro apresentava-se ao retratado como algo grotesco, nada igual à sua beleza imensurável. No entanto, esse retrato, contrariamente a um mero reflexo da realidade, retratava a alma de Dorian Gray. Para Oscar Wilde a arte retratava a “beleza” da alma e não a aparência da realidade.
É neste sentido que o autor, enquanto “dono” da obra, procura impor a sua ditadura sobre a mesma. Porque procura sempre que a “sua” obra fale com as suas palavras, os seus símbolos, os seus signos e não com as palavras que os outros dizem que ouviram ou com os símbolos e signos que dizem que viram.
O “silêncio” com que o autor amordaça a obra está “ilustrado” de uma forma poética e maravilhosa no filme Le Sang dun Poète de Jean Cocteau: numa das cenas vemos um personagem roubar a boca de uma estátua que fala. O poeta rouba a fala à sua musa, impede-a de ser, de falar por si, impede-a de se manifestar em autonomia. Sob a tirania do autor à estátua apenas lhe é permitido falar nas mãos do autor, com as mãos do
autor. Sem elas, não passa de uma simples forma material, sem vida. No entanto, existe aqui uma outra leitura possível: os lábios da estátua falam apenas nas mãos do poeta, ou, apesar de este lhe roubar os lábios, estes recusam em silenciar-se? Ou seja, a fala da estátua permanece para além do poeta, do artista, do autor. Não depende especificamente da sua vontade. Existe vida para lá das imagens?
E seguidamente o mesmo personagem coloca-se frente a um espelho e mergulha nele, como se de um lago se tratasse. Estas duas belas imagens do filme de Cocteau apresentam claramente o problema da obra e do autor e da sua relação: em primeiro lugar, o autor rouba a fala à obra, o seu poder ditatorial quer impor-se sobre ela. A obra não fala por si mas por aquilo que o autor quer que diga de si mesmo. O autor é uma espécie de foco de expressão, que, sob formas mais ou menos acabadas, se manifesta da mesma maneira e com o mesmo valor nas obras ... Estas trazem sempre consigo um certo numero de signos que reenviam para
o autor (2). Mas só num primeiro momento. Porque após um primeiro momento de vitória, o autor perde definitivamente o controle. É neste preciso momento que o poeta, o artista, o autor, se coloca diante da sua própria imagem. O seu “fracasso” leva-o a mergulhar dentro da sua própria imagem, numa tentativa desesperada de se apropriar do seu reflexo, da sua imagem, do seu outro eu.
Este espelho representa aqui um rombo na estabilidade e quietude do autor: ao mergulhar no espelho o autor/ poeta não despedaça o espelho, antes entra num outro domínio, que vive para lá do espelho, do outro lado do espelho.
1- Oscar Wilde in Prefácio a O Retrato de Dorian Gray, pag. 10
2- Michel Foucault, O que é um autor?, pag. 53-54.
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