O ESPELHO E O ÉCRAN
A obra de arte no mundo digital perde o estatuto de coisa e portanto de obra. Neste sentido o autor deixa de ser um produtor de objectos artísticos para passar a ser um produtor de projectos artísticos.
Aos nossos olhos os objectos sempre foram imagens, obras do intelecto que apelam ao sensível. Do intelecto, porque são concebidas, planeadas, projectadas, manufacturadas pela técnica, pela inteligência através de um determinado nº de objectos / instrumentos / ferramentas (de sensibilidade). Do sensível porque se tornam inteligíveis através dos sentidos, compreensíveis, perturbadores ou inquietantes aos nossos olhos. A obra de arte veicula-se fundamentalmente através dos sentidos e, mais concretamente, no presente caso, através da visão. Como dois actores que se olham frente a frente, como num espelho, imitando os gestos / reacções um do outro: determinada reacção que se possa tomar frente a uma obra de arte está intimamente relacionada com a própria essência da obra que desperta essa reacção: causa e efeito, efeito / causa são intrínsecas. Determinada reacção frente a uma obra (do desprezo à idolatria) só é possível por causa dessa obra; o desprezo / idolatria que essa obra provoca só é possível porque estamos ali frente a frente, em comunhão de espíritos.
A Arte vive na mediação que a obra é, que a imagem é. No suporte onde a obra / imagem se concretiza.
Ora é este suporte que no digital faz toda a diferença. A imagem não vive no suporte, não se adapta materialmente a ele, vive dentro dele.
Contrariamente à pintura / fotografia / desenho, cuja imagem se "cola" ao suporte; ou seja, a matéria da qual se produz a imagem, da qual a imagem surge, é aplicada sobre o suporte (tinta, sais de prata ou carvão / grafite) ou à escultura, onde a imagem está relacionada com a sua forma material correspondendo-se reciprocamente (o suporte é matéria da imagem; a matéria é suporte da imagem) a imagem digital não tem matéria: é feita de luz, é imaterial, só podendo ser "vista" através de um monitor ou projector. Poder-se-ia pensar numa analogia com o cinema uma vez que aquilo que vemos é uma imagem projectada feita com luz. Neste sentido a imagem cinematográfica é imaterial. Ampliando a analogia, também o slide. No entanto a imagem projectada tem um componente bastante matérico: no caso do cinema o filme, no caso do slide o próprio slide. Películas transparentes que a luz dá a ver a imagem que neles reside à superfície.
É através do ecrã do computador que o verdadeiro do mundo digital se revela.
Qualquer imagem digital (fotográfica ou videográfica) pode ser impressa ou projectada (impressa e projectada no caso da fotografia, apenas projectada no caso do vídeo); mas estaríamos apenas perante uma manifestação física do digital (no caso específico da impressão). Neste caso o conceito de digital é confundido com o de técnica; existindo mesmo alguma confusão entre criadores e público. Uma imagem digital impressa ganha o mesmo estatuto de uma fotografia impressa laboratorialmente: torna-se objecto. O digital é um meio e não uma técnica.
A técnica tem a ver com o processo de construção, a tecnologia com a maneira como essa imagem se constrói. No digital a técnica pode ser fotográfica, videográfica ou de síntese: daqui surgem os formatos JPG, PSD, TIFF (no caso por exemplo da fotografia), AVI ou FLX (no caso do vídeo). Formatos que diferem ao nível do software e da qualidade da imagem.
No caso do mundo analógico, o objecto (dito objectivo) da pintura é o quadro, no digital é a própria imagem. Na pintura analógica é utilizada uma tecnologia que tem por base um modo de utilização dos materiais (as tintas) e instrumentos (os pincéis) sobre um determinado suporte (a tela). Na pintura digital a tecnologia tem por base a utilização de determinados instrumentos (os programas) cuja matéria essencial é o código binário.
Ou seja, a técnica da pintura tem a sua existência no mundo físico ou material (cujo objecto é o quadro) e no mundo digital (cujo objectivo é a imagem). Assim a técnica é associada a determinada disciplina (pintura, desenho, fotografia, escultura, vídeo), a tecnologia à sua especificidade, quer se trate do meio material (pintura a óleo ou acrílico; desenho a grafite ou carvão; escultura em madeira ou pedra; vídeo em VHS ou Hi8) ou digital (pintura em BMP ou JPG; fotografia em TIFF ou PSD; vídeo em AVI, MPEG ou FLX; escultura em VRML).
É portanto através dos programas, do software, que o autor "digital" cria as suas imagens. É no meio digital, utilizando instrumentos digitais que o autor "digital" se coloca, criando imagens e não obras / objectos. Não são matéria mas puro conceito. Não são sensíveis mas inteligíveis.
Que imagens se reflectem no espelho? A realidade daquilo que percepcionamos ou outra coisa para além da aparência daquilo que reconhecemos?
O espelho reflecte aquilo que estamos capacitados em reconhecer; ou seja, não podemos compreender o que desconhecemos. O espelho mostra-nos aquilo que podemos ver, assim como qualquer obra de arte. Só podemos ver numa pintura aquilo que podemos ver nela (ou seja, como muito bem mostrou Magritte, o nosso próprio olhar). Só podemos perceber o que já percebíamos. Daqui a analogia entre o espelho e a arte (ou mais concretamente a pintura).
A analogia do espelho é igualmente outro grande factor introdutório ao mundo digital: ele mostra-nos o que conseguimos ver, mas oculta-nos o que está para além dele. Ao contrário da janela que mostra tudo o que está para além dela, o espelho esconde-nos a realidade com a nossa própria realidade (O Retrato de Dorian Gray?).
O ecrã do computador é uma janela para outro mundo. Uma janela para o desconhecido. O que existe para lá dessa malha de pixeis que vivem na superfície do êcran. Curiosamente no filme Matrix (Andy e Larry Wachomsky, 1999), o mundo que reconhecemos como real é o que está dentro do computador; ou seja, a realidade em que vivemos é um mundo virtual, imaginário. Matrix apresenta-nos a realidade virada do avesso: vivemos no outro lado do espelho um sonho imaginado por outros.
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