Unknown Artist Virtual Museum

INTRODUÇÃO
O digital: o mundo à distância de um click

O digital é um processo, decorrente do código binário, e um estado cuja essência é virtual. Processo porque está em permanente transformação, estado porque, ou se estáou não conectado virtualmente através de milhões de circuitos electrónicos, que ligam em rede milhares de computadores. Ou seja, o digital implica uma conexão a uma colectividade virtual, a uma potencial sociedade que existe para além da realidade física. Segundo Pierre Levy o virtual, é um modo de ser fecundo e poderoso, que põe em jogo processos de criação, abre futuros, perfura poços de sentido sob a plenitude da presença física imediata (1). Estando o mundo em constante evolução, aquilo que nos pareceu uma revolução das tecnologias de comunicação (a internet) tornou-se uma revolução social, social porque o mundo digital implica a conectividade entre as pessoas, e consecutivamente um tipo de relação entre elas.
O princípio fundamental desta revolução foi a passagem do átomo para o bit. No entanto, apesar de estarmos a viver na idade da informação a maior parte da informação ainda é fornecida sob a forma de átomos: jornais, revistas, livros ... (2)

Vivemos assim entre dois mundos, um digital e outro físico, passando sucessivamente de um estado para o outro, num ping-pong constante. Tratam-se de dois mundos paralelos, um visível e esclarecedor, o outro invisível e possibilitador de sentidos.
O mundo digital é uma espécie de mundo submerso, oculto, que existe para além da aparência física que os nossos olhos contemplam. Para imergirmos nesse mundo precisamos aprender a mergulhar nas suas ondas: conectados a milhares de computadores reparamos que, por detrás dos mesmos, do outro lado, existem outros seres como nós, pessoas que compartilham um mesmo estado: o da conectividade digital. Ao navegarmos na internet deparamo-nos a qualquer hora do dia ou da noite com inúmeros seres solitários que também estão fazendo o mesmo: daqui surge uma espécie de ideia de colectividade, de inteligência
colectiva.
Segundo ainda Pierre Levy a inteligência colectiva é uma inteligência distribuída por toda parte, incessantemente valorizada, coordenada em tempo real, que resulta numa mobilização efectiva das competências... A base e o objectivo da inteligência colectiva é o reconhecimento e o enriquecimento mútuo das pessoas. (3) Caso assim não seja, não se tornará universal, da colectividade e portanto, não interessará, não haverá partilha. É necessário descentrar, fazer parte do colectivo, caso contrário não estaremos digitais.

O mundo mudou, a Internet tornou-se um grande fenómeno de comunicação do nosso século, tal como o foram a televisão e a rádio no seu tempo. A transição da era industrial para a era pós-industrial, ou da informação, foi discutida durante tanto tempo que, provavelmente, nem demos conta de que já estamos na era da pós-informação. A era industrial, uma era de átomos, deu-nos a produção em massa, com as economias derivadas da fabricação através de processos uniformes e repetitivos num determinado espaço tempo.
A era da informação, ou dos computadores, mostrou-nos as mesmas economias de escala, mas menos relacionadas com o espaço e com o tempo. O fabrico de bits podia acontecer em qualquer lugar em qualquer altura... Na era da informação os meios de comunicação tornaram-se maiores e ao mesmo tempo mais pequenos. Na era da pós-informação, temos frequentemente um público de uma pessoa. Tudo é feito por encomenda e a informação é extremamente personalizada (4). Através da internet, o espaço foi transformado em velocidade: graças à transferência instantânea e barata de dados electrónicos que se movem à velocidade da luz... tornámos a informação universalmente acessível (5).
As auto-estradas da informação têm mais a ver com a velocidade de bits que com as distâncias geográficas. No mundo digital a distância significa cada vez menos (6) . E se estes novos canais de informação revolucionaram o modo como percepcionamos o mundo (tudo está em todo o lado ao mesmo tempo) o mesmo poderá dizer-se em relação ao seu impacto no mundo da arte: a primeira acepção, é a da internet como uma gigantesca
galeria virtual aberta 24 horas e acessível a milhares de visitantes em todos os recantos do planeta. Em termos de exposição não pode existir maior paraíso para um artista. Mas existem outras acepções ainda mais interessantes possibilitadas, em primeiro lugar, pelas potencialidades que a própria tecnologia oferece e, em segundo lugar, pela facilidade de inter-acção entre as comunidades artísticas na internet.

A auto-estrada digital fará com que a arte acabada e inalterável se torne uma coisa do passado. O número dos bigodes pintados na Mona Lisa é apenas uma brincadeira de crianças. Veremos manipulação digital séria realizada sobre expressões supostamente acabadas, movendose através da Internet, o que não é necessariamente mau.
Estamos a entrar numa era em que a expressão pode ser mais participativa e viva. Temos a oportunidade de distribuir e de fruir sinais sensoriais ricos de maneiras diferentes de olhar para a página de um livro e mais acessíveis do que viajar para visitar o Louvre. Os artistas acabarão por ver a Internet como a maior galeria do mundo para os seus modos de expressão e enquanto meio de disseminação directa pelas pessoas. A oportunidade real estará no fornecimento pelo artista digital dos meios para a mutação e a mudança... ser digital permite a transferência do processo e não apenas do produto. Esse processo pode ser a fantasia e o êxtase de uma mente, pode ser a imaginação colectiva de muitos ou pode ser a visão de um grupo revolucionário
(7).
É neste novo mundo que o novo autor se coloca e que a sua própria identidade enquanto autor se questiona.

A presente dissertação parte do modelo clássico de autoria abordando os vários momentos / períodos em que a mesma foi colocada em causa, para entrar no meio digital e nas suas características, enquanto médium, e nos novos modelos de autoria: o mundo digital e as suas especificidades técnicas comportam obrigatoriamente um novo olhar sobre a criação artística e sobre o autor.
O autor é analisado partindo precisamente da noção do artista como criador, como Deus, e o seu trabalho alvo de culto, reverenciado nos espaços (con)sagrados dos museus. Segue-se uma análise - sob várias perspectivas - do trabalho de alguns autores que questionaram a noção de autor atrás mencionada: Marcel Duchamp, Maholy Nagy e Andy Warhol assumem-se como os principais protagonistas dessa rotura, aos quais se lhe poderiam juntar outros, como Ives Klein e Sol Lewitt.
Chegados ao modelo digital, é abordada a relação entre criador e público,   nas suas variadas vertentes, e os vários modelos de autoria, condensados em duas grandes especificidades, exemplificados em alguns projectos artísticos no capítulo final.

1- Pierre Levy; citado por Marta Alves de Souza in Tecnologias da Inteligência, Ciberespaços, Cibercultura,
Sociedade Digitalizada, Transnação
; São Paulo s/ data
<http://snbu.bvs.br/snbu2000/docs/pt/doc/t030.doc>
2- Nicholas Negroponte; Ser Digital, pag. 19.
3- Pierre Levy; citado por Marta Alves de Souza, ibidem.
4- Nicholas Negroponte; ibidem, pag. 173-74.
5- Nicholas Negroponte; ibidem, pag. 12.
6- Nicholas Negroponte; ibidem, pag. 189.
7- Nicholas Negroponte; ibidem, pag. 235-36.