"OBJECTOS" DIGITAIS

No meio digital existem essencialmente duas formas de encarar a criação artística: a primeira (mais difundida) assemelha-se à produção fotográfica e videográfica; ou seja, encara o digital mais como um processo que como um produto ou finalidade. Para os artistas que se identificam com este tipo de procedimento, encaram o equipamento informático como um mero instrumento de trabalho, cujo produto é sempre um objecto: um quadro impresso, uma fotografia, um CD ou DVD. Portanto, não encaram o meio digital como um fim mas como um meio através do qual produzem as suas obras. Desta forma, este tipo de artistas não são totalmente digitais. Circulam livremente entre dois mundos, o digital e o objectual, estando o primeiro ao serviço do outro: o objectivo é produzir um objecto, porque no campo artístico ainda é o objecto que domina.
Exemplo disto são as primeiras manifestações da arte electrónica, que, por exemplo, no caso de Nam June Paik, conjugava os procedimentos electrónicos com os próprios equipamentos: ou seja, os vídeos de Paik não surgiam separados dos equipamentos em que eram apresentados. Estes faziam parte integrante da obra. De certa maneira poderíamos dizer que o vídeo dava consistência à apresentação do aparelho (neste caso televisivo). Ou seria ao contrário?
Existe, no entanto, em franca expansão, um outro tipo de artista que se move totalmente no meio digital. São os artistas que produzem exclusivamente o seu trabalho para a internet. São os chamados net-artists. Estes serão os verdadeiros criadores digitais. No entanto, não podemos esquecer, neste grupo, os criadores de realidade virtual (embora esta forma digital não tenha ainda sido assimilada pela comunidade artística, quer através dos seus teorizadores, quer através dos seus criadores).

No campo explícito da net-arte temos artistas cuja obra parte do modelo tradicional de autoria (a do artista solitário) mas transposto para a Internet: um artista que preza o seu trabalho como um valor inquestionável e inviolável; ou seja, a sua voz, pensamentos e imagens são únicos e portanto incopiáveis. Este é o modelo determinante nas práticas culturais dominantes, modelo desenhado ou fabricado pelo mercado, por um lado, e pela figura genial do artista, por outro. A primeira valida o objecto enquanto produto cultural relevante, a segunda o autor como valor cultural e social reconhecido.
Temos depois um outro tipo de artista cuja "obra" interage com o público, é aberta à acção do público. Neste campo, a participação do público é tanto mais interventiva quanto o modelo de autoria praticado, indo desde o modelo tipo open source ( no qual a participação do público é total, podendo copiar e intervir no material exposto ou apresentado: o modelo que se propõe é o do mero sugestionador - o artista propõe uma série de ideias / imagens desafiando o público a intervir sobre elas, recriando-as) ao modelo de participação controlada (o mais preferido pela comunidade artística).

A net-art tem as suas origens, por um lado, na chamada arte telemática, por outro na chamada computer art. Assentando o médium internet em redes informáticas que ligam vários computadores em diversas partes do mundo, é lógico pensar no computador como o intermediário fundamental neste novo tipo de arte. Mas é necessário não confundir a computer art com a net-art: apesar de ambas existirem nos sistemas informáticos, são formas de arte muito diferentes.
A net-arte, no seu conceito puro, vai buscar o seu fundamento à arte telemática, cujos primórdios podem ser encontrados em autores como Marcel Duchamp e Moholy-Nagy. O primeiro foi o inventor desse tipo de arte chamada mail-arte ou arte postal. O segundo de uma série de imagens "encomendadas" por telefone. Nagy, propunha a utilização do telefone como forma de encarregar outras pessoas da execução material de obras de arte. Ao mesmo tempo que propunha a subversão do processo tradicional da criação artística (o realizador da obra passava a ser uma pessoa anónima) Nagy abriu passo ao emprego nas artes plásticas de uma tecnologia de comunicação.
Marcel Duchamp, por seu lado, propunha uma arte centrada num meio de distribuição postal: ficou célebre em 1916 o seu Rendezvous of 6 February, quando enviou uma série de postais aos seus vizinhos de Arensbourgs.
Mas o que existe de comum entre Rendezvous... de Duchamp e os Telephonbilder de Nagy? A distância. A ligação de dois pontos através do "objecto" artístico. No primeiro caso, uma ligação directa do artista ao fruidor, no segundo caso, através de um meio de telecomunicação e de uma terceira pessoa. Ou seja, em ambos os casos o artista e o receptor estão em espaços tempos diferentes, e a obra circula de um extremo para o outro. Contrariamente à relação clássica do observador com a obra que existe num determinado espaço-tempo criado previamente para o efeito (a parede da galeria ou do museu).
Ambos projectos procuram assim aproximar o artista do observador, o emissor do receptor, superar a distância que os separa.
A evolução da tecnologia, ao nível das telecomunicações, teve como principal preocupação a superação das distâncias territoriais, solucionando o problema das relações interpessoais entre indivíduos separados no espaço, abrindo a possibilidade do envio de mensagens sem corpo; tudo a partir de um conceito fundamental: transformar o espaço em tempo.
Mais do que subverter o processo tradicional da criação artística Nagy, ao propor a utilização do telefone para encarregar outras pessoas da execução material da obra de arte (o realizador da obra passa a ser uma pessoa anónima), abre passo ao emprego nas artes plásticas de uma tecnologia de comunicação.
A fronteira do início de experiências artísticas com computadores e a net-art, cruza-se quando uma série de investigações, mais concretas, se dirigem a aproveitar   as possibilidades da rede. Isto ocorre em 1994, uma década depois de surgir a Internet.

Em 1994, o realizador de cinema independente David Blair, realizou a primeira experiência de cinema interactivo em 3D na Internet: Waxweb, a versão electrónica do seu filme Wax or the Discovery of Television among the Bees. Em Waxweb , imagens, sons e textos misturam-se numa história não linear, cujo desenvolvimento depende das contribuições dos utilizadores, podendo modificar o guião. O projecto parte de um modelo clássico de autoria - apresentam-se várias sequências de um filme que, no entanto, podem ser vistas pelo espectador em sequência normal (ou seja, seguindo os capítulos 1, 2, 3, etc) ou saltitando entre as várias sequências propostas. Esta possibilidade permite ao espectador alterar a sequência normal da leitura de um filme, cujas sequências são oferecidos ao espectador já definidas e oferecendo uma única possibilidade interpretativa. Alterando esta sequência, a multiplicidade de leituras intensifica-se e, neste sentido, a autoria aqui não se resume a uma única possibilidade de leitura (embora controlada e totalmente prevista).
Modelo idêntico é seguido por Heath Bunting no projecto Visitor's Guide to London : um guia subjectivo e incompleto que, através de 250 paisagens, propõe uma visita a Londres. Todas as imagens são apresentadas em preto e branco, em alto contraste e de baixa resolução acompanhadas de botões indicando direcções: norte, sul, este, oeste, etc. Cada visitante fará, deste modo o seu próprio percurso, consoante vire à direita ou esquerda, siga em direcção norte ou sul.
Ken Golberg, professor de engenharia e artista, juntou robótica e arqueologia em The Mercury Project (o primeiro projecto que permitia parcialmente, a qualquer utilizador da Internet, alterar um espaço real à distancia a partir de um robot teledirigido).   A iniciativa teve enorme êxito, entre 1994 e 1995, dois milhões e meio de internautas conectaram-se ao quebra cabeças arquelógico, com o objectivo de procurar na areia misteriosos objectos, que lhes permitiria descobrir os mistérios ocultos num clássico de literatura. O utilizador deixa o seu papel de espectador passivo e a interactividade, em maior ou menor grau, converte-se numa das características chave da net-art.
Ken Goldberg continua, no ano seguinte, o discurso iniciado com The Mercury Project com Telegarden ; uma instalação artística, orgânica e interactiva que fez parte de uma exposição para o Ars Electrónica Center de Linz, Áustria. Entretanto desactivado em 2004, o projecto tratava de um pequeno jardim onde, graças a um braço móvel de um robot jardineiro, os internautas podiam plantar sementes, regá-las e controlar o seu crescimento através de uma câmara de vídeo.
Em 1996 o hipertexto confirma-se como um dispositivo capaz de transformar as estruturas narrativas tradicionais e os artistas enfrentam de múltiplas formas as novas possibilidades que se lhe oferecem.
A artista russa Olia Lialina começa a sua trajectória como uma net story teller com My boyfriend came back from the war   onde a partir dos sentimentos e emoções produzidos por uma situação pessoal, estabelece um esquema narrativo interactivo em forma de conversação.
Numa vertente conceptual e minimal, apesar da estética quase barroca, Lialina cria If you want me to clean your screen , destinado a tornar-se numa pedra angular da Net-Art. O aspecto participativo da Internet e a sua tendência em diluir o conceito de autoria, reflecte-se em obras nascidas da colaboração entre as novas estrelas nascidas neste meio.

A Internet tem o poder de situar o utilizador numa situação simultâneamente publica e privada. Diante do seu computador, o internauta encontra-se num espaço intimo e solitário e, ao mesmo tempo, tem a possibilidade de comunicar e actuar em tempo real com pessoas e lugares disseminados por todo o planeta. A garantia de anonimato que este meio proporciona, converte-o num território favorável para uma série de comportamentos, que não teriam lugar noutras situações. Por outra parte, a narrativa hipertextual não linear expressa-se em numerosos projectos, que demonstram a maturidade alcançada na experimentação neste campo, tanto no referente ao domínio da tecnologia como aos conteúdos.
Persistent Data Confidante de Paul Vanouse que, pela sua simplicidade e interactividade real representa un exemplo de Net-Art puro. Vanouse propõe uma troca de segredos: o utilizador deve deixar um para poder ler outro, o qual pode pontuar. Desta forma, os segredos com menor pontuação, ou seja os menos interessantes, são eliminados da lista e o visitante, influenciado pelo conteúdo da web converte-se em co-curater.
Technosphere , dos ingleses Gordon Selley, Jane Prophet e Mark Hurry, criam um projecto com o objectivo de refletir sobre os limites da criação na Internet, o primeiro site sobre vida artificial na rede e um dos mais espectaculares ao nível gráfico. O utilizador pode dar vida à sua própria criatura, elegendo as suas características físicas e os seus costumes. Depois, graças a uma password , pode seguir o seu desenvolvimento no mundo virtual sempre que se conecta. Exemplo moderno deste conceito é Second Life, criado em 2003.
Multi-Cultural Recycler de Amy Alexander é um projecto inspirado no conceito da reciclagem como alternativa à superabundância e à rápida obsolescência da informação electrónica. Este projecto emprega as web cams ligadas 24 horas por dia na web, oferecendo ao visitante a possibilidade de realizar o seu próprio "abono cultural" misturando as diversas imagens captadas pelas câmaras.
404 , do par belga-holandês JODI, é uma obra de culto e é necessário coloca-la num enquadramento no qual os artistas se aproveitam dos erros e imprevistos da linguagem hipertextual, para construir projectos de grande impacto gráfico. Neles, o utilizador é quase obrigado a lutar contra uma página cujas funções não acaba muito bem por entender. 404 , que se chama assim porque a primeira página que aparece é a do célebre erro " 404 URL not found ", está nesta linha, realizada com imagens de baixa resolução, com páginas que carregam muito rápido, demonstrando uma falsa interactividade e um emprego atípico das ferramentas web, desde a linguagem HTML ou ASCII até aos vírus que utilizam para realizar divertidos efeitos especiais . JODI encabeça uma tendência que mais tarde se definirá como hacker art .

History of Art for Airports , de Vuk Cosic, é outra obra de culto. Neste projecto, Cosic inicia a sua Historia Oficial da Net-Art, onde ironiza sobre a representação da art na rede, através de uma série de ideogramas parecidos aos que se encontram nos aeroportos, representando momentos e criadores chave da história da arte, desde Lascaux a Warhol, incluindo também destacados net-artists, como Heath Bunting.
A idéia de capturar, armazenar e elaborar fragmentos de obras já existentes para obter novos significados, confirma-se como uma das características peculiares das obras de Net-Art. Nesta linha Mark Napier concebe The Shredder que apresenta a estrutura global do site como uma collage caótica e irracional. Diferente dos navegadores tradicionais Shredder apropria-se dos dados da página, destruindo e depois reconstruindo a sua estrutura para criar outra web paralela à original. Desta forma os conteúdos convertem-se em abstração, os textos em gráficos e a informação em arte.
Art Teleportacia , é a primeira galeria de Net-Art que surge na rede. A obra de Net-Art perdeu o seu carácter efémero: muitos artistas manifestam, não só a necessidade de manter um arquivo da sua evolução criativa, mas também de entrar no mercado da arte.
Olia Lialina posiciona-se claramente no debate sobre os prós e os contras da comercialização da Net-Art, criando uma galeria virtual. Na sua primeira exposição Obras do Período Heróico , Lialina pôe à venda cinco obras por 2000 dólares cada uma. Além das suas obras, existem quatro projectos dos Net-Artists mais conhecidos internacionalmente: ABC (1997) de Shulgin, Location/Index de Jodi, Metablink de Vuk Cosic e Own, Be Owned or Remain Invisible de Heath Bunting. Neste projecto o artista britânico utiliza os recursos das hiperligações para representar a rede como uma complexa interacção de expressões narcisistas e desprendimento público, como um campo de batalha entre as instituições e os indivíduos. Olia Lialina, que encarna perfeitamente o novo modelo do artista-teórico-crítico-curator-divulgador, contribui ao debate com o seu testamento digital Will-n-testament , ao mesmo tempo que continua a sua vertente de narradora de histórias com Agatha Appears , um projecto que consiste numa cena de sedução entre um homem experiente e uma adolescente.

A finais do milénio, a rede converteu-se num território de inversões milionárias por parte de grandes corporações multinacionais e os net-artists enfrentam-se às exigências do mercado. Lentamente os paradigmas da arte tradicional voltam a impor-se e parecem querer absorver a Net-Art. A comercialização deste tipo de obras converte-se em tema de debate e também em objecto de acções de sabotagem simbólico. Já em 98, Olia Lialina se havia posicionado quanto ao debate sobre os prós e os contras da comercialização da Net-Art, criando uma galeria virtual.
Com o objectivo de recuperar o antigo espírito da Net-Art, o colectivo italiano 0100101110101101.org, liderado por Luther Blisset, repudia a falsa interactividade de muitos projectos e convida o utilizador a disfrutar da obra de forma imprevisível, distanciando-se das previsões do autor, retirando-a da sua rotina habitual (artista / galeria / museu / web) e reutilizando-a num novo contexto.

Enquanto na rede se debatem os conceitos de original, plágio e reciclagem, de apropriação e copyright, Mark Napier continua a sua reflexão particular aplicada ao desenvolvimento dos recursos técnicos com a criação de Riot , um navegador que realiza uma colagem automática da página que se deseja visualizar, com as três últimas que se visualizaram nesse sítio.
O potencial criativo da Internet e a acessibilidade das suas ferramentas, que permitem a qualquer um a ilusão de converter-se num artista, é questionado em Hommage to Mondrian de Teo Spiller. Um projecto que desafia o utilizador a criar a sua própria versão da uma famosa obra de Mondrian. O jogo que, num primeiro momento parece simples, complica-se a cada passo e o resultado diferente do esperado.

Interactividade/ participatividade, sequencia não linear, apropriacionismo são algumas das linhas de acção / características das obras de net-art, forma artística que encabeça esse novo meio artístico que se convencionou chamar de arte digital.


RESUMO

INTRODUÇÃO

AUTORIA DIGITAL

O AUTOR COMO CAUSA MOTORA

LE SANG D'UN POÉTE E O PARADIGMA DO AUTOR

O REFLEXO DO ESPELHO

ANALÓGICO VERSUS DIGITAL?

A CRIAÇÃO DIGITAL

"OBJECTOS" DIGITAIS

CONCLUSÃO

BIBLIOGRAFIA

WEBGRAFIA

Visitor's Guide to London, Heath Bunting, 1995

Telegarden , Ken Goldberg, 1995

If you want me to clean your screen, Olia Lialina, 1996

404, JODI, 1997

History of Art for Airports
Vuk Cosic, 1997

Riot , Mark Napier, 1999